domingo, 12 de setembro de 2010

Na Casa do Oleiro, sobre a roda [PARTE 2]

MEMÓRIAS DE UM VASO INACABADO

Foi Ele quem me encontrou.
Foi até o lamaçal, onde outros teriam nojo de pisar, e me tirou de lá.
Me levou para sua casa, e começou o tratamento.
Ele me mostrou como eu estava sujo e me disse como ele queria que eu fosse. Ele se responsabilizou por tudo, disse-me que eu apenas deveria confiar no Seu trabalho, e Ele me transformaria em algo que eu jamais teria imaginado, mas era surpresa!
Aceitei a proposta! Decidi me render às mãos do Oleiro.
Então tudo começou.
Primeiro ele me esmiuçou. Me desfez em pedacinhos... toda a sujeira escondida dentro de mim, agora estava ali - patente aos Seus olhos! Ah, quanta vergonha e dor! Como Ele podia fazer aquilo comigo? Tínhamos um trato! Era pra eu me transformar em algo maravilhoso. Eu não sabia que precisaria ser moído e despedaçado! Mas o Oleiro... ah, o Oleiro! Eu não consigo resistir à sua voz! Ele me confortou e me garantiu que tudo aquilo acabaria e que eu viveria uma nova fase... "Claro!" - eu disse. Sua voz e o Seu amor me deixavam constrangido. Eu não poderia dizer não a Ele.
E o processo continuou. Ali, desfeito em mil pedacinhos, Ele começou a retirar cada sujeira, cada pedrinha, tudo que não lhe agradava... Eu nunca me senti tão limpo! Foi maravilhosa aquela sensação! Agora eu era barro limpo! Estava perfeito! Nenhum outro barro poderia se sentir tão limpo quanto eu! Cheguei a sentir uma pontinha de orgulho! E em meio aos meus devaneios de soberba, o Oleiro vem com água e joga-a em mim.
"Como assim? Justo agora que eu estava me sentindo tão bem? Por que essa água fria agora?"
O Oleiro nada disse. E, com um semblante meio sério, me ajuntou em suas mãos e simplesmente começou a me comprimir! E seguiu-se uma sequência incessante de água fria e golpes insuportáveis, enquanto eu gritava e me debatia, perguntando o porquê de tudo aquilo, o que eu tinha feito de errado? Sua resposta era o silêncio! Eu daria tudo para ouvi-lo! Eu suportaria todos aqueles golpes e aquela compressão se ele me falasse algo... eu precisava ouvir aquela voz que me tranquilizava! Mas, nada! Nem um único sussurro...
Pensei que meu fim estava próximo, que não aguentaria! Foi quando finalmente Ele falou. Me senti como se viesse à tona depois de um longo mergulho sem ar. Aquela voz me invadiu por completo. Ele me disse que tudo aquilo tinha sido necessário. Eu precisava ser maleável para que Ele completasse a obra.
"Sim, posso entender isso." - respondi - "Mas, e o silêncio? Como pôde me deixar sofrer tudo aquilo sozinho? Sem uma palavra que pudesse me confortar?"
"Dependência!" - respondeu. "Você precisava aprender o significado de dependência. Precisava aprender a confiar no que eu lhe disse desde o começo. Você ainda lembra?"
"Claro! Você me disse que me transformaria em algo que eu jamais havia imaginado."
"E a condição que eu coloquei? Você se lembra?"
"Hummm... que eu devia confiar no seu trabalho..."
"Eu estou trabalhando. Você precisa confiar. Mesmo que eu me cale, eu continuo trabalhando! Você é minha obra-prima e não vou desistir de você. Mas você precisa confiar no que eu digo. Ou então, não será possível terminar a obra, enquanto você se debate em minhas mãos!"
"Perdoe-me por isto! Não quis retardar a obra... mas estava aflito demais!"
"Posso continuar?"
"Por favor!"
Então, ele me trouxe à roda!
Ele está me dando uma forma. Não era exatamente o que eu pensava, e confesso que muitas vezes cheguei a dizer-Lhe que eu poderia fazer melhor! Ele sorria alto, se divertia com meus questionamentos! E dizia que os planos dEle são mais altos do que os meus pensamentos.
Às vezes é fácil compreender isso; entender e aceitar Sua soberania sobre mim. Mas outras vezes, não faz o menor sentido para mim. De vez em quando ele precisa jogar mais um pouco de água...
E sempre que pergunto o porquê disto ou daquilo, Ele pacientemente dirige Seu olhar amoroso para mim e me diz: "Estou trabalhando! Confie no meu trabalho! O resultado será excelente!" - e mostra um sorriso largo e brilhante, como se já estivesse vendo o vaso pronto diante dos seus olhos!
Tenho aprendido a confiar no meu Oleiro. Estou aprendendo a confiar no Seu trabalho. Até aprendi a não me debater nas suas mãos! A cada minuto que passa, a obra está mais próxima da perfeição.
Permaneço na casa do Oleiro... permaneço sobre a roda.

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